ThiagoDamasceno: Mitologia & História: O Mito da Rainha de Sabá - Parte 01

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Mitologia & História: O Mito da Rainha de Sabá - Parte 01

Este trabalho é fruto de uma das minhas pesquisas sobre mitologia durante meu curso de graduação em História pela Universidade Estadual de Goiás (UEG). Apresentei-o no IV EREH (Encontro Regional dos Estudantes de História – Regional, Centro-oeste e Triângulo Mineiro), congresso realizado entre 23 e 26 de junho de 2011 no campus de Ciência Humanas, Econômicas e Sociais da UEG em  Anápolis-GO.  Ao publicá-lo neste blog, cujo conteúdo não é especificadamente acadêmico, alterei um pouco a linguagem e a estrutura do texto. Também o divido em duas partes. A primeira fala sobre três versões do mito e a segunda falará sobre o reino de Sabá histórico. Boa leitura!

Thiago Damasceno

O MITO DA RAINHA DE SABÁ: VARIAÇÕES SOBRE UM MESMO TEMA – PARTE 1

Introdução

        As definições de mito são várias. Abrangem desde concepções da História, da Sociologia e da Antropologia às concepções da Psicologia. Para Durkheim, são instruções alegóricas destinadas a adaptar o indivíduo ao seu grupo. Para Joseph Campbell, são histórias da busca do significado e do sentido da vida feita através do tempo, com metáforas referentes à coisas absolutamente transcendentais. Segundo Everardo Rocha, “O mito é uma narrativa. É um discurso, uma fala”. Pode ser visto como uma possibilidade de se refletir sobre a existência, o cosmos, as situações de “estar no mundo” ou as relações sociais”. Segundo essas definições, pode-se ver o mito como uma história interpretativa do mundo e dos episódios de um povo, carregado de um caráter religioso. Os mitos de um povo, principalmente nos períodos que denominamos Antiguidade e Idade Média mostram como as sociedades viam sua existência, além de ser também uma representação dos seus episódios históricos, pois o mito não é uma estória que porta apenas um senso ético-religioso, ele tem seu fundo histórico.
        Nosso objetivo é buscar esse contexto histórico na análise das três versões do mito da rainha de Sabá, a versão do Velho Testamento, do Alcorão e da tradição etíope, focando as análises nas relações entre os reinos que são mencionados nas versões do mito.


Resultados e Discussões

O mito e suas versões

        Por ser uma narrativa contada há séculos em lugares diferentes, por povos de culturas diferentes em contextos e épocas distintas, o mito da rainha de Sabá adquiriu três versões ou formas, como muitos outros mitos (o mito do Dilúvio, por exemplo, encontrado nas tradições grega, hebraica, mesopotâmica e chinesa). Contudo, conservou-se a base do mito, que é a relação entre a rainha de Sabá e Salomão, o rei israelita. O centro das narrativas é o encontro entre esses dois monarcas.

A versão judaica
         
        Essa versão encontra-se no Velho Testamento, nos livros de I Reis 10:1-13 e II Crônicas 9:1-12. Segundos esses livros, ouvindo falar da riqueza e sabedoria de Salomão, a rainha de Sabá resolveu testá-lo com perguntas. Ela foi à Jerusalém, capital do reino de Israel, com uma grande comitiva e levou muitas especiarias, ouro e pedras preciosas para presenteá-lo. Apesar de sua grande riqueza, defendida pelos livros, “E deu ao rei cento e vinte talentos de ouro, e muitíssimas especiarias, e pedras preciosas; nunca veio especiaria em tanta abundância, como a que a rainha de Sabá deu ao rei Salomão” (I Reis 10: 10), a rainha de Sabá impressionou-se com a riqueza de Salomão, tanto do seu palácio, quanto a condição de seus servos e glorificou o seu deus e abençoou seus servos e sua sabedoria. O rei Salomão respondeu a todas as suas perguntas e “deu à rainha de Sabá tudo o que ela desejou, tudo quanto pediu, além do que dera por sua generosidade” (I Reis 10: 13), o que sugere uma relação além do campo político. Porém, o objetivo desse encontro é a curiosidade. A sábia e poderosa rainha de Sabá veio de seu distante reino para conhecer o sábio, poderoso e prodigioso rei Salomão, de Israel. Não são mencionadas relações comerciais ou alianças políticas.

A versão islâmica

        Presente no capitulo (ou sura) 27 do Alcorão, intitulada “As Formigas”, onde é relatado que Deus concedeu a sabedoria aos reis David e Salomão, assim como a linguagem dos pássaros. Salomão reuniu seu exército, djins (espíritos), homens e pássaros e foi ao vale das formigas, quando percebeu a ausência da poupa, um pássaro específico. Momentos depois a poupa retornou e disse que vinha de Sabá, onde ela viu um trono glorioso e governado por uma mulher, mas o Diabo havia desviado ela e seu povo do caminho certo, pois eles adoravam o Sol. Para certificar-se se o que a poupa dizia era verdade ou mentira, Salomão ordenou que ela levasse uma carta sua ao reino de Sabá. Nessa carta Salomão mandava que os membros desse reino viessem submissos a ele. A rainha de Sabá decidiu enviar ouro a Salomão em resposta à carta. Recebendo o presente, Salomão mencionou que o que Deus lhe proporcionou era melhor que o ouro e decide atacar Sabá com seu exército. Porém, Salomão perguntou aos membros de sua corte qual deles lhe traria o trono de Sabá antes que este viesse-lhe submisso. Um dos ministros, que tinha o “conhecimento do Livro”, disse que traria o trono de Sabá num abrir e fechar de olhos, e Salomão mandou desfigurar o trono para saber se a rainha o reconheceria. Quando a rainha chegou, numa espécie de mágica, foi até o palácio de Salomão, e como o piso era de cristal polido, ela confundiu-o com água e levantou seu vestido acima dos joelhos. Com isso, ela reconheceu seu pecado e submeteu-se a Salomão e ao seu deus, o “Senhor dos mundos”, segundo ainda o Alcorão.
        Carregada de sentido poético, o texto islâmico recebeu muitas interpretações. O “trono” que foi trazido perante Salomão num piscar de olhos pode ser interpretado como uma espécie de visão do reino de Sabá, onde Salomão queria mostrar a rainha, na sua forma física, que ela estava errada em adorar o Sol e assim, conseguir sua conversão e submissão. Vê-se aí a relação conjunta entre religião e política, comum na Arábia desde o advento do Islã. O Alcorão não mencionou a rainha por seu nome, mas a tradição árabe-islâmica chama-a de Balquis ou Bilquis. Segundo essa mesma tradição, a rainha de Sabá era metade mulher e metade demônio e no momento em que ela levantou seu vestido pensando que o chão do palácio de Salomão era feito de água, ela exibiu à corte israelita suas “pernas de bode”. Logo depois, ela admitiu seu pecado e aceitou o deus de Salomão. Religiosamente, para o Islã, ela foi curada de sua deformidade pela fé e passou a adorar o verdadeiro deus. A tradição islâmica interpreta esse relato de forma literal, e não simbólica.

A versão etíope

        Tal versão é relatada no Kebra Negast (Glória dos Reis), livro sagrado da Etiópia. O centro desse livro é a história da relação amorosa entre o rei Salomão e a rainha de Sabá, cujo fruto foi Menelik, considerado o ancestral das dinastias etíopes. O Kebra Negast confirmava o poder dos reis. Antes de descrever o relato desse livro, é preciso levar em conta que os etíopes consideravam e consideram a antiga Etiópia ou reino de Aksum, como reino originário da rainha de Sabá, mas as pesquisas apontam que esse reino estava na Península Arábica. A Etiópia está na região denominada “chifre da África” e apenas o Mar Vermelho separa essa região da zona sul da Península Arábica (ver no mapa, a região destacada por um círculo vermelho). A localização do reino de Sabá ainda será dissertada neste trabalho. 


De acordo com o Kebra Negast, a rainha de Sabá foi para Jerusalém partindo de um porto que corresponde hoje ao porto de Adoulis, na Eritréia, também um território do antigo reino de Aksum.  A rainha de Sabá foi convidada para ficar no palácio de Salomão, mas como ele era famoso como amante de mulheres, ela decidiu ficar apenas se ele não a tocasse. Salomão concordou e também pediu que ela não tocasse em seus objetos pessoais. Usando sua astúcia, Salomão ordenou que o jantar fosse bastante temperado para causar sede. Após o término do jantar, a rainha de Sabá procurou por água e só encontrou no quarto de Salomão. Pensando que ele dormia, ela tomou sua água, mas ela a agarrou, dizendo que ela havia quebrado sua promessa. Assim, os dois monarcas fizeram amor. Nessa noite a rainha sonhou que uma luz cruzou o céu indo de Jerusalém à Etiópia. Tempos depois a rainha voltou para seu reino. Porém, ela levou consigo dois presentes: um anel de ouro dado por Salomão e uma criança em seu ventre, que foi nomeado Menelik, que quer dizer “o filho do sábio”. Quando era jovem, Menelik foi à Jerusalém para conhecer seu pai. Salomão só acreditou que Menelik era seu filho quando viu o anel de ouro carregado por ele, o anel que o rei israelita dera à rainha de Sabá. Salomão pediu que ele permanecesse em Jerusalém, mas Menelik preferiu voltar para seu reino. Ele retornou e levou consigo a Arca da Aliança.
        Parte da atual Etiópia, como mencionado anteriormente, pertencia ao antigo reino de Aksum, cuja capital também tinha o mesmo nome: Aksum. A cidade de Aksum ainda existe e é considerada a cidade mais sagrada da Etiópia e o principal centro de peregrinações. Os cristãos ortodoxos etíopes crêem que a Arca da Aliança está na catedral de Nossa Senhora Maria de Zion em Aksum e que ela protege o país. Essa crença produz rituais, como a vigília noturna na noite de Nossa Senhora, onde padres, por meio de hinos, rezas e leituras bíblicas protegem a Arca. A Arca, segundo a crença etíope, não pode ser vista e seu guardião é vitalício.

Semana que vem postarei a segunda parte do trabalho. Até mais!


Referências

A BÍBLIA SAGRADA – Tradução de João Ferreira de Almeida. Gráfica Bandeirantes, Guarulhos, 2009.

HOURANI, Albert. Uma história dos povos árabes. Companhia das Letras, 2ª edição, São Paulo, 2005.

LAMBERT, Jean-Marie. História da África negra. Kelps, Goiânia, 2001.

O ALCORÃO - Tradução de Mansour Challita. ISBN 978-85-7799-168-6. Best bolso, Rio de Janeiro, 2010.

ROCHA, Everardo. O que é mito. Brasiliense, São Paulo, 1996.

WARNER, Marina. Da fera à loira. Companhia das Letras, São Paulo, 1994.

WOOD, Michael. Em busca de mitos e heróis. British Broadcasting (BBC). Londres, 2004. 45 minutos.

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