ThiagoDamasceno

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Crônica: Todo Natal é um Estrago


Era uma noite fria de domingo quando eu voltava do cinema com uma amiga. Havíamos assistido ao filme “Assassinato no Expresso Oriente”. Paramos em um dos semáforos da Praça Cívica por força da ordem furiosa da luz vermelha. Estávamos a contemplar o clássico cenário natalino da praça quando um pedinte apareceu.

            Ele cumpriu sua função social: pedir dinheiro para sobreviver nos lembrando o quanto a sociedade é desigual, mesmo que  tal desigualdade social nem sempre ressoe em nosso interior emocional como deveria. Entre apelos e atropelos discursivos, ele falou algo como “não queria estragar o Natal das crianças”. Não entendi bem se ele havia destruído alguma coisa na praça sem querer ou se queria comprar algo para os filhos dele. O fato é que ele encostou no retrovisor do carro e começou a discursar.

            Falou das dificuldades da vida, etc, etc, etc... Conversa banal sobre o óbvio infernal. Luz verde, passagem livre. Semeamos mais distâncias na desigualdade abissal que havia entre nós e ele. No caminho, minha amiga levantou uma questão importante, no campo das emoções. Eu, como de praxe, estava concentrado no campo material.

- Tadinho dele... Só queria desabafar – disse ela.

- Pois é... – respondi.

- Tá vendo, ele não tem nada, nem ninguém pra ouvir as noias dele. A gente pelo menos tem um ao outro pra ficar ouvindo as noias, as angústias e os dilemas.

- Realmente... – respondi de novo, mas dessa vez absorvendo profundamente a seriedade daquele assunto.

            Maldita desigualdade social: não basta deixar muitos na miséria material, tem que tirar deles até boas companhias humanas, um ombro amigo, um ouvido atento, um olhar carinhoso. Desse jeito, não há Natal que não tenha estragos.  

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Crônica: Em Tempos de Desespero Pelo Poder, Desconfie de Deus

Por Thiago Damasceno

YouTube: Orientalismo na Rede

Estava eu em um quente fim de tarde de domingo em Goiânia quando tive a ideia para esta singela crônica reflexiva. Para cumprir com meus compromissos acadêmicos e para conhecer mais sobre meu campo de estudos (história árabe-islâmica), estava lendo uma biografia sobre o Profeta Muhammad (mais conhecido, erroneamente, como Maomé), o fundador do Islã, feita pela pesquisadora norte-americana Karen Armstrong (1944-). Na obra, entrei em contato com a seguinte ideia: a religião usada como arma ideológica.

No momento da leitura, eu me informava sobre a Península Arábica do século VI, antes da fundação do Islã. Apesar da distância temporal e espacial, o uso político da religião, naquele tempo, foi um pouco similar ao uso político da religião hoje, nestes tempos ditos pós-modernos, ainda mais no Brasil, onde os mercadores da fé encontram um terreno fértil para se proliferarem feito vermes. Explicarei melhor.

Eu lia sobre a desconfiança que os árabes politeístas da porção centro-ocidental da Península Arábica tinham do judaísmo e do cristianismo, as duas religiões monoteístas até então. Mas por que essa desconfiança? Porque esses mesmos árabes percebiam que dois grandes reinos próximos a eles haviam perdido suas autonomias ao entrarem no jogo político dos dois impérios da época, o Império Bizantino (Romano Oriental) e o Império Persa (Sassânida).

Os dois reinos que saíram perdendo foram o Reino da Arábia do Sul e o Reino da Abissínia, onde hoje é a Etiópia. Volta e meia, os soberanos desses reinos se convertiam ao cristianismo herético ou ao judaísmo e se aliavam aos dois impérios, entrando na dinâmica de alianças e inimizades e perdendo suas independências para os dois impérios. No meio disso tudo, a religião era usada como justificativa para acordos militares e como elemento motivador de guerras.

Em suma, o Império Bizantino e o Império Persa usavam as religiões (também) para alcançarem seus objetivos políticos e militares. Era o uso da religião como arma ideológica. Sei que uma coisa é o Oriente Médio no século VI e outra coisa é o Brasil no século XXI, mas perceberam algumas semelhanças?

Em tempos de desespero por dinheiro e poder, como hoje em dia, o nome e o conceito “Deus” servem para qualquer coisa, inclusive para justificar argumentos e ideias e incentivar fiéis menos instruídos e mais desavisados a caírem na exploração. Quantos padres, pastores e imames agem em nome de Deus mesmo que seus atos contrariem os princípios das religiões que eles dizem defender? E a coisa não para por aí, se alastrando também para grupos extremistas tanto no Oriente como no Ocidente. Governos também não ficam de fora, muito menos sujeitos políticos em prol de um Estado cristão super violento que não enxergue as minorias, sempre em situação de fragilidade social. Vocês sabem de que tipo de sujeitos estou falando!

Assiste-se, cada vez mais, à dessacralização da religião e do divino. Talvez o pesquisador das religiões, Mircea Eliade (1907-1986) teria um enfarto fulminante ao ver a fusão mesquinha entre o sagrado e o profano, ele, que afirmou que o sagrado está numa dimensão distinta, numa ordem diferente a tudo que é profano e natural. Mas agora, nestes tempos pós-modernos, “Deus” se tornou multiuso: serve para qualquer coisa, basta estar bem vestido, dizer que se diz e se faz pelo Bem de todos e ter uma oratória convincente. Tudo isso, em um país como o nosso, onde o analfabetismo funcional e a falta de senso crítico se alastram, favorecendo o crescimento de mercadores da fé e de charlatães de todo tipo, que agem de igrejinhas do interior a corredores podres do Congresso Nacional. São manipuladores de ideias e discursos, perversos que exploram as esperanças e crenças alheias e invertem o jogo, convencendo os mais fragilizados de que é correto criar um Estado cristão com pena de morte, por exemplo.

Por isso, meus caros e minhas caras, cuidado com o divino nestes tempos de desespero pelo poder, onde há homens e mulheres que fazem qualquer coisa para alcançarem seus objetivos. Desconfie de Deus, desconfie principalmente do Deus que nada tem a ver com o desapego ao ego e aos desejos pessoais, com espiritualidade ou com as dimensões invisíveis da realidade humana.

Na dúvida, procure um(a) psiquiatra, um(a) psicólogo(a) ou um(a) consultor(a) financeiro(a).



quarta-feira, 19 de abril de 2017

#Entenda o que é Ḥadīth

                  Mais um pequeno vídeo para se entender o sunnismo e o xiismo. Orientalismo na Rede: o seu canal de estudos históricos e culturais sobre o Oriente Médio!



domingo, 12 de março de 2017

CHÃO E VAIDADE --- ou Fígado Suado --- (crônica)

Por Thiago Damasceno

“Eu trago comigo os estragos da noite pela infinita estrada que tracei. Eu ando sozinho pela madrugada apagando os erros em doses viradas”. Ok, ok, confesso que minha versão de uma certa noite por aí não foi igualzinha aos versos do David Ballot, mas eles servem pra iniciar uma crônica sobre essa noite, seus acontecimentos e suas criaturas.
Trago comigo mais um fígado suado do que os estragos da noite em si. E não, não tracei infinita estrada nenhuma, fui mais traçado na verdade, tipo um joguete do Destino. Ando sozinho de madrugada às vezes, ou o tempo todo mesmo, pois coisa mais difícil é encontrar alguém em sintonia com você e, não, não apago os erros em doses viradas, os erros nem se apagam: vão se acumulando na memória.
- Então cê nem sabe onde tá pisando nesse caso?
- Sei não. Quando o chão desabar, aí eu vou ficar sabendo – respondi.
- Mas aí não vai ser tarde demais não, Negão? – perguntou meu melhor amigo.
- Vai, mas vou ficar sabendo do mesmo jeito, vou saciar minha vaidade em saber – concluí com a certeza que só o etilismo dá.
O lugar se chamava Cabaret Voltaire. Confesso que um “Cabaret Rousseau” combinaria mais com minha personalidade, mas, às vezes, me baixa um espírito voltaireano. Mas deixemos a melancolia rousseuneana para os dispostos a sofrer e voltemos ao otimismo de Voltaire.
Um dos companheiros da noitada era um ilustre desconhecido e melhor amigo de última hora. Nossos orixás bateram, Olodunmarê abençoou. Pensei que a noite começaria com o suspense causado pela tensão entre Éris e Eros, mas acabou com a união entre Ajagunã e Ogum, mas não fazendo guerra, e sim acendendo o cachimbo da paz. Éris dissipou-se junto com a fumaça e Eros ficou em alguma bruma, oculta em segredo.
E, no meio dessa animação toda, a mente tentou teorizar as questões da vida. A questão da vez é que a existência precisa de problemas senão não nos reinventamos, não somos instigados à criatividade de buscar uma solução. Até as preocupações têm seu lado positivo. Vida chata é vida sem problemas! Claro que há casos e casos...
Mas nem só de animação, problemas e casos sobrevivem as trevas tropicais de Goiânia. A madrugada veio em cheio com um soco no estômago e o corpo clamou por descanso. Era chegada a hora de ignorar os erros e pegar no sono, de ignorar Éris e Eros, Ajagunã e Ogum, e de repousar sob as sombras de Iansã Onira e de Hipnos. Isso mesmo, tudo junto e misturado, mais de um credo, mais de uma etnia, ou somente o um do todo: a crença e a etnia da miscelânea. Esse é o chão do Brasil. Isso é Brasil.
- Então cê nem sabe onde tá pisando nesse caso?
- Sei não. Quando o chão desabar, aí eu vou ficar sabendo – respondi.
- Mas aí não vai ser tarde demais não, Negão? – perguntou meu melhor amigo.
- Vai, mas vou ficar sabendo do mesmo jeito, vou saciar minha vaidade em saber – concluí com a certeza que só o etilismo dá.