ThiagoDamasceno

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Sociedade e Política: Goiás: Estado Violência

Goiás: Estado Violência

Por Thiago Damasceno


“Estado Violência, deixe-me querer!
Estado Violência, deixe-me pensar!
Estado Violência, deixe-me sentir!
Estado Violência, deixe-me em paz!”

(Estado Violência, Titãs)

Sou mais um maranhense que veio tocar a vida em terras goianas, terras de povo simpático e hospitaleiro, qualidades que minimizaram meus humanamente naturais medos da mudança e da adaptação. Esses medos não existem mais. Sete anos desde minha migração, já me sinto com identidade goiana e considero este estado também o meu lar. Porém, outro medo nasceu, ou melhor, cresceu. É o medo da violência. E para piorar, é um medo da violência tanto dos fora-da-Lei quanto dos agentes da Lei.



             Não vou falar sobre os criminosos perante a Lei porque isso é praxe. Falarei dos crimes cometidos por aqueles que estão sob a proteção legal e que, justamente por isso, abusam de suas autoridades e poderes. Há exceções, claro, mas quem dera viver sob o manto da ética e da justiça fosse fato para todos.

            Goiás, e principalmente a capital Goiânia e cidades vizinhas, vêm passando por momentos sociais e políticos turbulentos: além dos problemas “de sempre”, ultimamente a maioria da população vem sofrendo com o aumento abusivo da passagem do transporte coletivo e com as cacetadas de uma governança autoritária, avessa ao diálogo e a explicações de suas atitudes para com aqueles que mantêm os cofres públicos tilintando de moedas: nós, o povo, esse termo vago e genérico, mas que você e eu entendemos bem.
           
            O governo estadual, de forma arbitrária, quer introduzir o sistema de gestão escolar via Organizações Sociais. Isso gerou um movimento forte e coeso por parte dos estudantes secundaristas e até ação civil do Ministério Público de Goiás contra tal procedimento. Claramente, a gestão escolar via OSs favorece um grupo detentor de poderes políticoeconômicos e desfavorece as classes mais socialmente fragilizadas da população. É um esquema imoral, um esquema oriundo da lógica neoliberalista de governar. Sobre isso, o professor e diretor da Faculdade de Educação da UNICAMP, Luiz Carlos de Freitas, fala melhor.  


            Manifestações estudantis contra as OSs vêm ocorrendo desde o conhecimento público desse esquema, e de “brinde” a essas manifestações, a violência da Polícia Militar de Goiás. Ando com medo, você também deve andar assim. Mas agora não sei se tenho mais medo de um bandido ou da polícia. A polícia aqui prende, bate e humilha psicologicamente a seu bel-prazer, principalmente se você estiver participando ativamente de uma manifestação ou passar perto de uma. O discurso que as autoridades fardadas usam para legitimar seus abusos de poder é raso, superficial: “Fulano é vândalo, malandro, bandido, terrorista”, etc, etc... É um discurso bastante estúpido e simplório. 

Claro que há pessoas mal intencionadas e violentas nos movimentos sociais, mas isso não é “regra”. Claro que há PMs que exercem suas funções com ética - e paz na medida do possível - mas a “regra” que vem crescendo é a oposta. Vi e ouvi dizer de amigos, colegas e conhecidos sendo presos e humilhados pela PM. Durante uma ocupação na Seduce (Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esporte), no dia 15 de fevereiro, 31 pessoas foram presas por ocuparem o órgão. 13 dos presos eram estudantes menores de idade e um era professor doutor em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG). É necessário que os eleitores goianos saibam dessas atrocidades cometidas pelo governo e se lembrem delas no próximo período eleitoral.

O aparato policial durante a ocupação da Seduce... Guerra contra o tráfico: viaturas, helicópteros e policiais do Bope (Batalhão de Operações Especiais). A polícia até usou um ônibus coletivo da CMTC (Companhia Metropolitana do Transporte –Transtorno - Coletivo) para levar para a cadeia os 31 presos políticos que estavam apenas exercendo seu direito constitucional de livre manifestação e queriam acompanhar o andamento do processo jurídico do esquema das OSs na Educação (processo fechado para o público, uma clara ação anticonstitucional. Coisas de Goiás....). A força policial, levando todos em um ônibus coletivo, lembrou o clima do livro 1984, lembrou uma conspiração no ar arquitetada pelos poderosos. Aqui, em outros lugares do país, ativista político é rotulado de bandido.






A classe policial é uma classe muito incoerente. Não é detentora do poder econômico – na prática é uma classe trabalhadora - mas ou obedece sem refletir as ordens da classe superior (que a explora!) que manda “descer o cacete” em todo mundo que incomoda o sistema pelas suas falhas ou os policiais violentos simplesmente carregam o germe da violência dentro de si e são sádicos por natureza e por isso batem, prendem e xingam quem e quando querem.

             Nem vou entrar nas questões tanto sociais quanto filosóficas que envolvem a violência humana, tema muito complexo e polêmico, mas isso serve de gancho para mencionar a tristeza acarretada pelo assassinato da estudante Nathália Araújo Zucatelli de 18 anos no Setor Marista - bem como lembrar outros crimes tão ou mais bárbaros ocorridos com pessoas de outros setores da cidade, com outras cores e condições econômicas – e o despreparo democrático do governador Marconi Perillo para lidar com o caso.

            Numa coletiva de imprensa, o governador demonstrou sua falta de tato com jornalistas, principalmente quando uma das profissionais cobrou medidas mais práticas por parte do governo. Ela cobrou isso porque a retórica de Perillo foi de fuga do assunto e essencialmente de isentar-se de culpa. A culpa, como sempre nestes dias de “Ódio ao PT” disseminado por seus opositores, foi da tal “crise sem precedentes na história do Brasil” (se esqueceram dos anos 80/90!) e da presidenta Dilma.

            Não estou defendendo nem o PT e nem Dilma Rousseff. Obviamente a presidenta e seu partido têm seus muitos problemas, como toda a estrutura política do país e seus partidos, mas culpá-los EXCLUSIVAMENTE por todas as desgraças do país – como muitos cidadãos vêm fazendo, criando uma verdadeira algazarra de estupidez política – é ingenuidade, desinformação, falta de senso crítico e até – dependendo do caso – mau caráter.

            Ao governador Marconi Perillo sobrou o autoritarismo esnobe para pedir a demissão da ousada jornalista e a cômoda posição de, enquanto principal gestor de um estado, representar-se como vítima perante uma “crise em igual” e escrever uma carta para a “demoníaca” presidenta Dilma Rousseff cobrando uma posição. Até onde sei, existem forças policiais exclusivamente de Goiás e verbas federais para a segurança, mas parece que é mais rentável investir em propaganda e pagar cachê para cantores milionários – como o Leonardo e companhia – em detrimento de investimentos sociais que favoreceriam a construção de uma sociedade mais pacífica e humanizada.

            Os donos do poder estão no poder há tempos e pouco se importam com a sociedade. Não sei como conseguem dormir direito à noite.  Ou talvez durmam bem, afinal de contas, há uma teoria – parece que de caráter popular, não pesquisei a fundo – que defende que uma pessoa para chegar em um altíssimo cargo de gestão em escala estadual/nacional/mundial, dependendo do seu cargo, precisa de elevada dose de apatia e “des-sentimentalismo”. Ou então a escalada do poder políticoeconômico em si leva ao desenvolvimento de tais estados psicológicos.

            Vivemos tempos complicados em que muitas autoridades são os verdadeiros bandidos e os bandidos explicitamente foras-da-Lei não ficam para trás. Vivemos tempo complicados, injustos e violentos. Ou talvez sempre se viveu assim.

            A sombra do medo paira sobre Goiás. Tenho saudades daquele tempo em que era recém-chegado nestas terras, em que tudo era uma novidade e eu sentia apenas bons ventos soprarem pelo cerrado do coração do Brasil.


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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Crônica: A Noite Goianiense

A Noite Goianiense
Por Thiago Damasceno


A noite goianiense cheira a cerveja, cheira à “cantina das trevas” e a uísque caro que leva ao mesmo efeito de uma pinga nacional boa e barata. A noite goianiense cheira à nicotina, porronca e maconha. Cheira a um perturbador alívio.

A noite goianiense cheira à ressaca e à sofreguidão da última noite mal dormida.

A noite goianiense cheira a vulvas e pênis tanto encharcados quanto ressecados. A noite goianiense cheira a arrotos imorais. Cheira a fogo e cinzas de prazeres.

            A noite goianiense cheira a pobres almas desesperadas mendicantes de atenção, a anjos em busca do Paraíso, a demônios viciados no Mal procurando em vão a salvação.

            Mas salvação não há na noite goianiense.

            A noite goianiense cheira a intelecto ansioso por gamas de assuntos, por questões, dúvidas e incertezas que aflijam o espírito e por isso mesmo o acalante, porque não há nada mais relaxante para a angústia existencial tu que viver em busca de respostas.  

            A noite goianiense cheira a você preferir ir a um pub onde uma banda faz cover do bom e velho Nirvana a ir a um show de uma banda internacional viajada cujo som não passa de um rockão antigo que começa a tocar numa daquelas cenas clichês de filmes hollywoodianos em que dois motoqueiros descolados entram num bar.

            A noite goianiense cheira à tua amiga te deixando em casa na calada da madrugada enquanto a cevada já corrompe teu senso de juízo e direção e ela já te fez todas as perguntas cujas respostas você só confessaria pra Deus ou pro Diabo.

            A noite goianiense cheira à busca por algo, mesmo sabendo que você não vai conseguir esse algo, mas que precisa quebrar a cara, pagar pra ver.

            A noite goianiense cheira à sobrevivência após andar por quebradas obscuras em um setor nobre. É na nobreza que se escondem os vícios. A pobreza nada tem a esconder, é explícita e declarada. A miséria é sincera. A riqueza mente.

            A noite goianiense cheira à lição de se satisfazer e se contentar com uma bela noite de sono. A cama está lá toda a te abraçar. 

            A noite goianiense chega ao fim no teu quarto silencioso enquanto aquela velha parábola zen fica a ecoar na tua mente cheia de conceitos e ideias até que você a acalme porque no final essa é a única saída que resta no beco da ansiedade.

            A noite goianiense cheira à tua sombra, cheira à tua projeção nublada no escuro.

            A noite goianiense cheira à meditação. Mas salvação não há na noite goianiense.



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terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Cinema: Star Wars – Episódio VII: O Despertar da Força


ATENÇÃO: Texto Com Spoilers!

O Retorno da Força:
Uma Breve Análise de Star Wars – Episódio VII Por Um Fã

Por Thiago Damasceno

É um prazer imenso, espacial e mitológico ver o retorno de Star Wars às telonas com seus personagens icônicos e seus demais elementos que se tornaram presentes no imaginário popular desde os anos 1970, mas Episódio VII – O Despertar da Força não é lá essas coisas que estão falando, como se fosse um dos melhores filmes da franquia ou do ano. É um filme bom. É um bom começo para uma nova trilogia. Apenas.



            Já iniciei o texto com minha opinião e a seguir falarei meus motivos. Começo com as qualidades da obra: trama ágil, boa escolha de elenco, ótimas atuações, cenas de ação no ritmo e na medida certa e toques de mistérios e suspense ao estilo J. J. Abrams, que primeiro apresenta seus personagens e depois mostra seus passados. Pelo jeito, o cineasta fará isso nos próximos episódios, VIII e IX. Aguardo ansiosamente respostas sobre os passados de Rey, Kyle Ren, Luke e Snoke.  Só espero que J. J. Abrams não perca a mão como perdeu na série Lost, onde deixou muitas questões sem respostas.

            É perceptível para os fãs de média e longa data que Episódio VII – O Despertar da Força usa em seu enredo estruturas dos Episódios IV e V. Uns veem isso como homenagem. Concordo em partes. Mas devido à quantidade excessiva de referências estruturais aos episódios anteriores, Episódio VII deixa a desejar em criatividade.

            Estão lá novamente o dróide-chave que todos procuram. Antes era R2D2 com a mensagem da Princesa Léia Organa para o velho mestre jedi em autoexílio Obi-Wan Kenobi, agora é o carismático BB-8 com um mapa para encontrar o lendário jedi também em autoexílio Luke Skywalker; antes o jovem Luke Skywalker deixou seu desértico planeta Tatooine rumo a uma jornada heroica, agora é a vez da jovem Rey deixar o estéril Jakku; antes o Império tinha uma super arma secreta, agora sua filha mais nova, a Primeira Ordem, também tem sua super arma secreta; antes o confronto entre pai e filho era entre Luke e Darth Vader, agora é entre Han Solo e Kyle Ren, também numa ponte sobre um grande fosso, tal qual no episódio V.

            Há várias outras referências menores que considero desnecessárias, mas destaco por último a figura do Velho Mentor. Antes tínhamos uma criatura antiquíssima que conhecia muito bem a Força: era o pequeno mestre verde Yoda. Agora, a maior conhecedora da Força é Maz Kanata. Também pequena e também antiquíssima. Uma versão feminina de Yoda, e laranja.


            Penso que bastavam as referências normais aos episódios anteriores como personagens, naves e temas. As referências às estruturas das estórias e roteiros anteriores prejudicaram o novo episódio. Há tempos eu suspeitava que enquanto a trama trabalhasse com os personagens da trilogia clássica, a nova trilogia não iria avançar muito em termos de “autonomia”. A trilogia do I ao III tem sua identidade e a do IV ao VI também. A nova trilogia (do VII ao IX) iniciou com pouca autonomia pela quantidade excessiva de referências estruturais aos enredos passados, mas com a morte de Han Solo e já apresentados os novatos na saga, creio que nos episódios VIII e IX teremos realmente os episódios VIII e IX, filmes mais autônomos em termos de estrutura e identidade. Assim espero.

            Outros dois pontos fracos do filme são a escassa contextualização política Pós-Queda do Império e o mau uso da personagem Capitã Phasma.

            Devem ter se passado uns 20 anos desde a queda do Império e, mesmo assim, não vemos como funciona a Nova República e a Resistência, apesar de aliada ao poder oficial, encontra-se tão sucateada quanto a antiga Aliança Rebelde.

Na Primeira Ordem, cuja origem é obscura – mas que talvez seja esclarecida nos próximos filmes – temos a Capitã Phasma, que é um soldado diferenciado, mas age pouco e não tem nenhum peso na trama. Talvez os próximos filmes, talvez...

Entretanto, O Despertar da Força é um bom filme de aventura. Como diria uma amiga, praticamente um “As Aventuras de Finn e Rey”. Interessantes esses dois personagens protagonistas, um negro e uma mulher, seguindo a tendência cinematográfica de dar voz a representantes de grupos sociais até então bastante submissos no cinema. Finn é engraçado e ativo, você pensa que ele será o próximo jedi e então... Rey, moça forte e independente revela ser o principal receptáculo do “despertar da Força”, como menciona Kylo Ren ao seu mestre, Snoke.

Quanto aos mistérios relacionados à família Skywalker, Rey e os novos vilões há vários. Kyle Ren, cujo antigo nome era Ben – como seu pai Han Solo o chama – é um jovem rebelde que se espelha na sombra do avô, Darth Vader. Muitos pensam que ele era um discípulo de Luke que foi para o lado sombrio, mas isso não é afirmado com exatidão, deixando a ideia de que talvez Snoke possa ser o antigo discípulo rebelde de Luke. Esperemos as respostas.

Outra coisa que precisa ser mais esclarecida é o uso do sabre-de-luz. Até então a arma era considera super perigosa e só alguém com reflexos de jedi e muito treino poderia manuseá-la. Mas Finn a usa. E ele, tem a Força ou não? Rey usa a arma magistralmente, mas a Força está com ela, porém, só isso seria necessário para bailar com o sabre-de-luz? Kyle Ren deu uma surra em Finn, mas perdeu para a garota. Válido, sendo ele um aprendiz ainda – Snoke diz que precisa terminar seu treinamento – mas ao mesmo tempo um aprendiz que consegue parar um tiro laser no ar. Confuso, tão confuso quanto os caminhos do lado sombrio.

Pontos fortes e emocionantes do filme são a entrada de Han Solo e Chewbacca na Millennium Falcon, o voo da Millennium Falcon após anos estacionada, a trágica morte de Han Solo, as visões que Rey tem sobre seu passado e o encontro da jovem com Luke Skywalker, logo no final da o filme.

Um gancho perfeito para as próximas aventuras galácticas.





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sábado, 16 de janeiro de 2016

Crônica: Essa Coisa Toda de Ano Novo

Essa Coisa Toda de Ano Novo
Por Thiago Damasceno


Sempre achei uma grande besteira essa coisa toda de Ano Novo com suas promessas e juras de positividades eternas, mas também gosto de estar dentro dessa besteira com as amizades do peito. Faz bem pra alma, se é que há alma. Acredito mais em memória do que em alma. Quando se morre, pra onde vão as lembranças? Retornam à Força? São convertidas em raios gama, raios cósmicos, voltam a ser matéria interestelar? Afinal, tudo se transforma e somos poeira das estrelas.

       Na manhã de primeiro de janeiro de 2016 estava dando uma volta pela nossa preguiçosa Goiânia que exibia com orgulho sua ancestralidade rural e tediosa em suas ruas vazias pela ressaca do dia anterior. E eu, também de ressaca, ainda arrotava garrafas de Estrella Galicia e o espumante da meia-noite cuja marca nem procurei saber, só queria mesmo uma dose mais forte pra ajudar a digerir o complicado ano de 2015.

         Mas ver o ano se iniciando daquele jeito, de forma calma e tímida, fez bem. Deu mais ainda aquela sensação de recomeço, como se fala em um poema do Drummond que todo mundo anda compartilhando tanto nas redes sociais que já virou clichê.

        O início do ano foi tipo começo de temporada nova de seriado: no final da temporada anterior a agente Scully encontra um embrião extraterrestre e o agente Mulder quase foi morto por saber demais, mas aí uns caras de preto levam o embrião de volta pro lugar de onde não deveria ter saído e devolvem o Mulder ainda vivo. Pronto: tudo voltando ao normal.

         No mais, só espero que este 2016 não tenha tanto clichês nem tantos porres-clichês pra esquecer as merdices do ano, muito menos embriões de extraterrestres a serem descobertos. Tô desejando mesmo mais estabilidade e sossego, mas sei que isso vai ser difícil.

         Já tô vivido o suficiente pra sentir que vem bagaceira por aí.

                   E muita ressaca. 


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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Os Mutantes: Quando a Brincadeira Ficou Séria

Os Mutantes: Quando a Brincadeira Ficou Séria

   Por Isabela Crispim 
Graduanda em História,
produtora de eventos
e professora na rede privada de ensino

    Uma junção de três universos distintos, que sensação poderia isso nos proporcionar? A banda Os Mutantes pode muito bem nos dar essa resposta e espero que vocês, caros leitores, conseguiam ter um gostinho deste universo encantado. Desejo também que após a leitura desta matéria vocês corram para aquilo que o século atual nos proporciona e baixem algum dos maravilhosos álbuns dessa viagem que chamamos de Os Mutantes. 


     No ano de 1966 uma rara história de amor e música se inicia com Rita Lee (aquela belezura do cabelo cor de cenoura), Gênio Batista, opa, quero dizer, Arnaldo Batista e um dos melhores guitarristas do Brasil, Sergio Dias, assim nascendo Os Mutantes, nome estipulado um pouco antes de apareceram no III Festival de Música Popular Brasileira.

      Muitos afirmam que essa banda vem na onda da Tropicália, mas eu não concordo com isso. Prefiro dizer que Os Mutantes nada mais é do que um som extremamente humorístico e um verdadeiro gozo, uma alegria. Não existem limites: falam de amor, loucura, amizade e provavelmente tudo que você já pensou essa banda cantou a respeito. Apesar de parecer tudo uma brincadeira, fazer um som igual ao deles é deveras difícil. 

     Quando escutamos Os Mutantes percebemos ondas psicodélicas e experimentalistas. Eles realmente sabiam como lidar com os instrumentos que tocavam, afinal era um dos irmãos de Arnaldo e Sérgio que criava os instrumentos da banda (Cláudio César Batista, considerado como integrante da banda), pois naquela época não existia pedais de guitarra no Brasil e tiveram que criar os seus próprios. Sabiam harmonizar, desde a voz até o próprio figurino e por fim “A brincadeira ficou séria”, ou seja, ao mesmo tempo em que a palhaçada (no sentido de gozação) estava envolvida na identidade da banda havia toda uma técnica por trás de suas notas.

       Uma das provas é o fato de estarem entre os discos mais experimentais de todos os tempos. Segundo a revista britânica Mojo eles se encontram na frente de bandas como Beatles e Pink Floyd. O disco Tecnicolor seria um dos LPs mais marcantes dos anos 70 no Brasil sendo totalmente impecável. Meus caros, eu afirmo que não existe no Brasil um som tão criativo quanto Os Mutantes. Não percam mais um segundo sem embarcar nesta nave espacial, pois afinal “Estamos todos aqui reunidos para esta maravilhosa festa” (BATISTA, A).



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terça-feira, 3 de novembro de 2015

Crônica: A Graça de Um Lugar Só Seu

A Graça de Um Lugar Só Seu

Por Thiago Damasceno


O protagonista Ethan Hawley – do romance O Inverno da Nossa Desesperança, de John Steinbeck – tem um Lugar, um local especial no antigo cais de sua cidade. Pra esse Lugar ele vai sempre que precisa refletir sobre as mudanças na sua vida. E lá, sozinho e em silêncio, ele alça altos voos nos seus pensamentos existenciais.

            Creio que todos nós precisamos de algo do tipo. É fundamental pra relaxarmos e chegarmos a uma espécie de centro a partir do qual iremos agir. O meu Lugar não é tanto um local, pois não envolve um local e um momento definidos, mas algo criado por mim, algo circunstancial, envolvendo mais do que local, tempo e pensamentos. Descobri-o há pouco. Criei-o com a ajuda do livro de crônicas A Graça da Coisa, de Martha Medeiros, e o álbum Velha Gravura (1990) do grupo Quaterna Réquiem.

            Conheci a escritora gaúcha em um programa de entrevistas, no Conexão Roberto D´Ávila, se não me engano. Gostei da sua forma de ver as coisas. Quando encontrei seu livro de crônicas não pensei duas vezes antes de comprá-lo. Em A Graça da Coisa, Martha escreve com fluidez e naturalidade sobre diversos temas da vida privada e da vida social, sempre instigando a reflexão. É uma escritora de mão cheia no gênero textual crônica, híbrido de jornalismo e literatura.


            Por mãos cheias também é composto o grupo de música instrumental Quaterna Réquiem. Criado no final dos anos 1980 no Rio de Janeiro pela tecladista Elisa Wiermann e pelo baterista Cláudio Dantas, a banda mistura música de câmara com progressivo sinfônico. É uma beleza só. Músicas instrumentais ao embalo de diversas atmosferas sensoriais. Coisa linda de se ouvir. Destaque para as canções “Aquartha”, “Velha Gravura” e “Madrugada”.


            E pra quê lugar melhor do que ler Martha Medeiros e ouvir Quaterna Réquiem? Tento começar todos os meus dias assim, nessa vibe bem “de boas”.

A graça da vida está nesses pequenos prazeres.



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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Crônica: “Nos Deixem Viver, Pelo Amor de Deus!”.

“Nos Deixem Viver, Pelo Amor de Deus!”

Por Thiago Damasceno


A desgraceira no transporte coletivo é realidade em todas – senão em quase todas – as capitais. Nem adianta listar os problemas aqui porque eles são velhos conhecidos por todos.

E em Goiânia a coisa toda assume tons absurdos e surreais.


            Agora os bilhetes SitPass foram extintos. A primeira raça dizimada, após os cobradores. Sendo assim, temos que usar o Cartão Fácil recarregável, algo considerado mais moderno, chic, Primeiro Mundo, essa merda toda bastante alheia ao cotidiano brasileiro. Acontece que a direção da CMTC (Companhia Metropolitana de Transporte Coletivo) limitou o uso do cartão. Você só pode usar uma vez por terminal ou ônibus e no máximo quatro vezes ao dia. A justificativa é garantir a segurança dos usuários.
           
            Tá certo... Senta lá, Cláudia.

            Atitudes como essas, que visam apenas aos lucros de poucos por meio da exploração e da criação de mais sofrimento à população confirmam uma ideia livre – e deveras clichê - que tive acerca do nosso sistema políticoeconômico.
           
            Estava eu andando de ônibus quando me veio um pensamento hippie. A parte de mim que ainda está voltando de Woodstock pensou: o mundo está a desgraceira que está, devido, em grande parte, aos obstáculos que põem contra a vida popular.  

            Em outras palavras, como canta Sílvio Brito: “Tem que pagar pra nascer, tem que pagar pra viver, tem que pagar pra morrer”.

            Não, não estou exagerando no drama e não sou a favor de ser caloteiro, mas é que pras camadas menos favorecidas há toda uma política de impedimento à vida. Tudo é muito difícil, desde transporte à manutenção da saúde. O brasileiro pobre e de classe média vive cercado por um dinheirisimo selvagem, uma burocracia avassaladora e demais bloqueios aos atos vitais. Parece que apenas a morte lenta por inação é autorizada. A elite brasileira é sádica. Sua filosofia é de que o outro precisa estar prostrado no chão para que o elitismo possa desfilar.  

            O trabalhador que ganha salário mínimo, o filho desse trabalhador, que estuda em escola pública ruim os e demais cidadãos com estilo de vida semelhante nem sempre têm uma consciência que permitam a eles criticar seus meios sociais e discutir com coerência política e economia, mas sofrem sentem diariamente na pele a exploração dos donos de poder a ponto de erguerem as mãos pros Céus e clamar: “Nos deixem viver, Pelo Amor de Deus!”.


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