Você está aí, Diabo? Sou eu, Thiago.
Escrevo
para trocarmos umas ideias, para tentar tirá-lo do tédio que suponho que você
esteja vivendo. Não deve ser fácil estar fora da boca do povo enquanto o seu
inimigo, Deus, continua sendo citado de tudo quanto é jeito. Já se foi o tempo
em que diziam “Isso é coisa de Deus!” e “Isso é coisa do Diabo!”. Hoje tudo é
coisa de Deus, para o bem e, principalmente, para o mal.
O ser humano nunca foi de assumir
plenamente seus atos. Se faziam algo ruim, culpavam você. Se faziam algo bom,
diziam que tinham sido inspirados por Deus. Mas agora você está esquecido. Só
se fala em Deus para qualquer coisa. Dizem que Ele elegeu os políticos. Dizem
que Ele trouxe o corona. Dizem que Ele adoece e salva quem quer. Dizem que a
vacina também é graças a Ele. Tudo muito contraditório no fim das contas, mas
você bem sabe que isso faz parte da natureza humana.
Usar o nome de Deus para
justificar qualquer coisa é um feito humano que nunca saiu de moda. É assim
desde que o mundo é mundo. Vez ou outra o citam do jeito certo, mas de uns
tempos pra cá, neste Brasil varonil, andam dizendo que Deus elegeu Fulano e Beltrano
e não há nada a ser feito, pois é a vontade Dele! Até genocida já foi eleito
desse jeito!
No
alto da minha ingenuidade, eu pensava que com toda nossa ciência e experiências
sociais acumuladas poderíamos chegar a um ponto em que o fanatismo político
cairia por terra. Ou que pelo menos o povo não fosse tão ingênuo a ponto de
acreditar em político: ainda mais nos que fizeram carreira em fazer nada!
Confesso
que fui mesmo muito ingênuo, pois só agora percebi que o potencial de
inteligência da mente humana é proporcional à sua burrice. Há quem filosofe
sobre o valor da existência e há quem faça carreata para a Morte. Tem gente por
aqui que não gosta de vacina, que acha que Jesus andaria armado, que Deus gosta
de ver as pessoas morrerem de fome, etc., etc., etc.
Confesso que o que mais me
impressiona na humanidade não é nem o egoísmo ou todas as variações dos pecados
capitais, mas sim seu potencial em acreditar em mentiras ou defender
abertamente o Mal. Essas duas coisas, de todo modo, levam ao autoextermínio.
Isso é o que mais me impressiona porque a humanidade parece ser a única espécie
que sente algum regozijo em eliminar a si mesma. Que coisa, não?
Aproveitando a ocasião, tenho uma
pergunta franca sobre nosso cenário: Você gostou de assistir isso tudo do
camarote do Inferno?
Arrisco
dizer que sim. E também que não. Não me entenda mal, vou me explicar: você
gostou de ver um monte de patetas caindo na velha lábia dos donos do poder, mas
odiou não ter sido citado, e sim Deus! Afinal de contas, quem é o Pai da
Mentira?!
E
por falar em pai... pobre Deus! Imagino que viva uma decepção tremenda a cada
milésimo de segundo. A frustração com Adão e Eva nem chega aos pés da sua frustração
atual.
E
se Deus é pobre, a religião também é, pois por aqui ela se tornou um mero
instrumento político de convencimento. Dizem o nome de Deus para conquistar os
pobres corações e mentes de fiéis carentes de tudo.
Outra pergunta franca: Você acha
que o Brasil ainda tem jeito?
Percebi que esta carta é
mais um desabafo do que uma troca de ideias. Desculpe-me por isso. Sabe como é:
“Errar é humano”.
Despeço-me com uma das passagens bíblicas mais memoráveis para mim. “Bons tempos” aqueles em que você andava por aqui, não é?
“No dia em que os Filhos de Deus vieram se apresentar a Iahweh, entre eles veio também Satã. Iahweh então perguntou ao Satã: “De onde vens?” – “Venho de dar uma volta pela terra, andando a mesmo”, respondeu o Satã” (Jó, 01:06-07).
Thiago Damasceno, Goiânia-GO,
06 de abril de 2021
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